O Andaraí era um dos maiores bairros do Rio de Janeiro quando Chiquinha Gonzaga, aos 52 anos, morava lá. Era tão grande que um nome só não era suficiente para identificar todo o espaço, daí apresentar-se com os nomes de Andaraí Grande e Andaraí Pequeno. Mas o tempo passou, o Rio conheceu a chamada "especulação imobiliária" e, quando os construtores de prédios perceberam que a palavra Tijuca vendia mais que Andaraí, este bairro transformou-se numa nesga do mapa da cidade.
Perdeu na geografia, é verdade, mas, na história, ninguém lhe roubará a honra de ser o berço da marchinha carnavalesca, pois foi a carioca Chiquinha Gonzaga, quem compôs, em 1899, aquela que é considerada a primeira música feita especialmente para o carnaval, "Ó abre alas", atendendo ao pedido do Cordão Rosa de Ouro, grupo carnavalesco do bairro: "Ó abre alas/ Que eu quero passar/ Eu sou da lira/ Não posso negar/ Rosa de Ouro/ É quem vai ganhar".
Nasceu no Andaraí um gênero musical que o carioca viria adotar como uma linguagem para todas as circunstâncias. Quando, por exemplo, a seleção brasileira goleava a Espanha por seis a um, na Copa do Mundo de 1950, uma multidão calculada em 200 mil pessoas festejou cantando "Touradas de Madri", de João de Barro (Braguinha) e Alberto Ribeiro. João de Barro, que assistia ao jogo na arquibancada, não conseguia parar de chorar, nem mesmo quando um torcedor, irritado com o pranto, berrou: "Pode chorar, espanhol!"
Texto extraído de "As Marchinhas - Elas contam tudo", de Sérgio Cabral.
Lido por Pedro Bálaco no sarau de 11 de agosto de 2012, cujo tema foi "Rio de Janeiro".